Débora Haupt: Da tetraplegia ao parto normal

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Nosso papo hoje é com Débora Haupt tetraplégica de 34 anos, que vive na cidade de Farroupilha/RS, casada e com uma filha de 2 anos e 9 meses. Débora também é presidente de uma associação de pessoas com deficiência chamada AMDEF na mesma cidade onde reside. Associação essa que luta pelos direitos das pessoas com deficiência.


Deborá Haupt


Cadeirantes life - Como aconteceu o acidente de moto?

Em uma bela tarde de sol íamos eu e meu marido, Jair, para aula de inglês em Bento Gonçalves, um carro cruzou nossa frente em um trevo. Fui lançada pela moto como em um mergulho de cabeça, fraturei a coluna cervical, C3 à C6 e no momento da queda fiquei totalmente paralisada do pescoço para baixo.

Cadeirantes life - Quando percebeu que tinha ficado tetraplégica?

Estive hospitalizada por 1 mês e meio, porém nunca me foi dito com todas as palavras que eu estava tetraplégica; eu fui descobrindo aos poucos. Sempre soube que era algo grave e que sairia do hospital em uma cadeira de rodas. Ainda no hospital comecei a mexer um pouco dos braços e descobri que talvez nunca mais mexesse as mãos; acho que foi das coisas mais duras que eu poderia saber.

Cadeirantes life - Como foi a aceitação da cadeira de rodas?

Nunca tive problemas com a cadeira de rodas, nunca senti vergonha, muitas vezes até me orgulho dela (principalmente por ela ser cor de rosa... risos), mas tive sim, e tenho ainda, momentos de muita dor, raiva e tristeza por tudo que perdi. Penso que temos que olhar pra frente, pois a vida continua, porém não se pode ser hipócrita em dizer que é fácil viver este “pacote tetraplégica” que a vida me impôs, a cadeira de rodas é somente o detalhe mais visível aos outros, mas a realidade que a tetraplegia trás, vai muito além disso.

Cadeirantes life - Antes do acidente você era professora de espanhol, tentou voltar a lecionar após o acidente?

Sempre trabalhei muito, amava a sala de aula e meus alunos, pouco tempo depois do acidente tentei voltar a dar aulas, primeiro na escola de idiomas onde trabalhava e depois até mesmo em uma escola regular, quando fiz meu estágio da faculdade de letras, que cursei depois do acidente.

Na verdade não consegui me adaptar por diversos motivos, pela dependência da logística do ir e vir, por não conseguir superar as barreiras físicas e de acesso, conviver com minhas muitas limitações e principalmente por não conseguir me realizar, não sentir mais a felicidade que eu tinha em sala de aula... percebi, então, que precisava investir em algo que me desse liberdade (como eu sempre tive) e prazer em trabalhar, por isso me especializei em tradução com uma pós-graduação que terminarei em novembro deste ano, a partir daí penso em focar com mais intensidade no trabalho novamente.

Cadeirantes life - Você sempre foi dançarina de CTG, qual a falta que a dança faz em sua vida hoje?

O CTG foi um grande presente que a vida me deu, ali conheci meu grande amor e vivi momentos que nunca sairão da minha cabeça e do meu coração. Era daquelas pessoas que dançam da primeira a ultima musica de uma festa. Não deixo de fazer isso, na cadeira de rodas, do jeito que dá, mas a sensação libertadora da dança faz falta sim, muitas vezes dói de saudade, mas se tenho vontade de dançar, nunca deixo de fazer, nem que seja somente na imaginação.

Cadeirantes life - Você virou mãe após ficar cadeirante, para muita gente cadeira é sinônimo de pessoa que fica vegetando numa cama ou na cadeira de rodas. O que tem a falar sobre isso?

Ser mãe foi o maior presente que a vida me deu. Desde que fui da primeira vez ao Sarah, hospital de reabilitação, em Brasília, me foi dito que eu poderia ser mãe. Quando já havia retomado parte da minha vida, senti que não poderia ficar esperando alguma melhora de movimentos para ter um filho, e que se eu tivesse a possibilidade de recuperar algo mais significativo, iria curtir esse momento com meu filho do meu lado. Assim eu e meu marido resolvemos tentar, nos preparamos e nos organizamos para isso e a Manuela veio para iluminar nossas vidas. Ela é força, luz e vida pra mim, não posso me imaginar sem ela, tem sido uma experiência incrível.


Deborá Haupt e Manuela
Débora com sua filha Manuela

Cadeirantes life - Quais os cuidados que você teve que ter na gravidez por ser uma grávida cadeirante?

Para poder engravidar eu tive alguns cuidados simples, orientados pelo Sarah e pela minha obstetra.
O Sarah me propôs uma aplicação de botox na bexiga para poder ficar sem a medicação que uso para as questões urinárias. Também me recomendaram buscar um obstetra especializado em alto risco. Assim, minha obstetra pode cuidar dos pontos mais críticos para a mulher cadeirante que são a possibilidade de trombose e a parte urinária. Pude engravidar como qualquer mulher, assim como tive a Manuela de parto normal. Precisei tomar uma medicação profilática para evitar a infecção urinária e um anticoagulante durante toda a gravidez.


Deborá Haupt na gravidez
Débora na gravidez  

Cadeirantes life - Seu marido sempre esteve junto com você após o acidente, acha que a relação de vocês ficou fortalecida após o acontecido?

Meu marido é meu anjo da guarda, meu parceiro, tudo de bom nessa vida. Tive ele sempre comigo, me deu a força que precisava, junto com a minha família toda que foi fantástica. Não foi fácil a adaptação à nova vida, mas a paciência, o companheirismo e o amor fizeram agente superar as dificuldades e com certeza nos fortaleceu muito. Conversamos muito, falamos abertamente sobre tudo e nos permitimos descobrir uma outra forma de amar, diferente da de antes, mas que nos faz muito feliz!


Deborá Haupt com seu marido Jair
Débora com seu marido Jair

Cadeirantes life - Débora, acha que tem alguma missão para passar para as outras pessoas hoje?

Sinto que as pessoas tiram das dificuldades que vivi algumas inspirações. Penso que a vida coloca desafios na nossa vida por algum motivo, talvez o meu seja ajudar as pessoas que vivem a mesma situação que eu. Não é fácil, mas sempre digo que as pessoas tem uma força interior que não conhecem, e que nestes momentos de dificuldade vem à tona.

Cadeirantes life - O primeiro contato que tive com sua história foi num documentário para uma marca muito famosa de cadeira de rodas, como foi para você poder conta sua história nessa dimensão?

A minha história é pra mim igual a qualquer outra, todas as pessoas vivem dificuldades, sofrem e superam barreiras todos os dias, porém as pessoas a vem como uma lição de superação. Eu tenho prazer em compartilha-la, principalmente quando recebo muitas mensagens dizendo que minha história de vida inspirou alguém a vê-la de forma diferente. Por isso foi maravilhoso ser convidada a compartilhar minha vida em canais que levaram minha história tão longe. Acho que será algo que ficará para a Manuela, tenho a sensação de dever cumprido, como se pudesse deixar pra ela um legado de honra e força de vida.


Veja o documentário:



 “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

Charles Chaplin

Um comentário

  1. Olá Débora tudo bem,adorei sua história de super ação não sei se é coincidência mas acredito que foi Deus que fez eu te achar aqui na internet sua história é igual da minha sobrinha o acidente e tempo de hospital, a única cousa é que ela é gestante e graças ao bom Deus no acidente não afetou em nada o bebê, mês que vem será o parto cesariana, como eu gostaria de conversar mais com você para eu poder ajudar minha sobrinha a viver melhor, sabe ta tudo muito difícil a essa nova realidade,mas vamos vencer....

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