Carlena Weber - A minha versão da história

quinta-feira, 17 de setembro de 2015


Meu nome é Carlena, tenho 36 anos, sou cadeirante há 15 anos (debutando esse ano, hehe!), sou Assistente Social e no momento trabalho e me delicio com os retornos que a publicação de um livro tem me trazido!

Qual o motivo e desde quando você usa a cadeira de rodas? 
Sofri um acidente de carro em 2000 que me deixou tetraplégica.

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Eu não saberia construir essa tabela com notas sobre minha felicidade. Acredito que a vida é montanha russa, sendo assim, ñ sou alegre o tempo inteiro, tampouco triste da mesma forma e acredito que o natural da espécie humana seja isso mesmo. 

O que sentiu quando ficou sabendo que tinha ficado tetraplégica?
Sinceramente, me senti perdida pela total falta de conhecimento a respeito 
de uma lesão medular, por isso demorei um pouco para compreender a dimensão do estrago. 

Qual foi o momento em que você resolveu se reinventar e voltar a sua vida ativa?
Consegui ir pro Sarah de BSB três anos após o acidente. Eu nunca tinha convivido com outros cadeirantes e ñ enxergava possibilidades, pelo contrário, lembro-me de sempre sentir muita pena das pessoas com algum tipo de deficiência, então meu desafio também era desconstruir esses valores que automaticamente fui trazendo pra minha vida depois de me tornar cadeirante . Lá conheci outros cadeirantes e bons exemplos de como poderia ser possível uma vida saudável e ativa sobre rodas e isso foi bem importante pra mim. Somando essas experiências a tudo que aprendi na reabilitação que a instituição disponibiliza, saí de lá super otimista em relação a vida de uma forma geral, talvez ali tenha surgido minha primeira sensação a respeito da certeza sobre meu lugar e papel no mundo. 
Carlena Weber Carlena Weber
Carlena Weber Carlena Weber
Por que você resolve escrever o livro (A minha versão da História)?
Na verdade, registrava em diários meu cotidiano. E comecei a acumular muito material. Um dia mostrei pra minha amiga Juliana Carvalho, autora do livro “Na minha cadeira ou na tua?” o que tinha escrito e ela me incentivou a procurar editora para a publicação de um livro. Foi assim que “A minha versão da história” começou a ser pensado! 

O que você conta nos tópicos do livro que estão em páginas pretas?
Nas páginas pretas trago meus diários, particularidades que fazem parte de uma construção minha de muitos e muitos anos. Não foram escritas pensando em publicação ou coisa parecida, escrevia pra mim, como desabafo talvez ou porque simplesmente gosto de escrever. Há alguns anos, se alguém me falasse sobre expor meus diários num livro, eu jamais concordaria com a ideia. Porém, fui repensando essa certeza quando me dei conta do quanto o meu cotidiano era permeado por aprendizados e perrengues que ser cadeirante me trouxe e lembrei da Carlena de antes do acidente que nem sabia o que era uma lesão medular, muito menos se questionava sobre acessibilidade, por exemplo. Daí me dei conta do papel social dos meus rascunhos e resolvi compartilhá-los num livro. 

Quais as referências que um cadeirante pode encontrar no livro?
Acredito que cada um vai interpretar o que lê de alguma forma e isso é muito subjetivo. Porém, enxergo no meu livro muitas possibilidades de desconstruir algumas opiniões sobre a realidade da pessoa com deficiência. Em nenhum momento me coloco como heroína ou como coitada, e acho que esse é o grande diferencial do meu livro. 

Deixe para nossos leitores, um trecho do livro de seu livro, que você mais goste e que mais te chame a atenção.
“Tento desviar novamente enquanto ele continua na minha frente tentando colocar a mão na minha bolsa. Automaticamente penso: este senhor quer me roubar! Tento me livrar dele e grito pra todo mundo que está no ponto de ônibus ouvir: 
— Socorro gente, este senhor quer roubar a minha bolsa! 
Quando termino de exclamar minha súplica, o insistente velhinho coloca a mão na minha cabeça, me chama de filha e me pede para ter calma. Calmamente estica o braço perto das minhas pernas e larga várias moedinhas. Sinto-me aliviada, eu estava recebendo uma esmola, o que no momento é muito melhor que um assalto. Fico olhando pra ele e digo:
- Ahhhh, então é isso que o senhor quer... 
Olho pro relógio e já estou cinco minutos atrasada. Não tenho tempo nem vontade de discursar na esperança de fazer com que este senhor mude imediatamente sua opinião sobre as pessoas que assim como eu, usam cadeira de rodas. Até posso contar que um dia também senti pena de mim mesma, mas agora tenho mais o que fazer. Sigo rodando, pensando no que acaba de acontecer e concluo que o mais importante a esmola não alterou: continuo me sentindo diva”. 


A minha versão da história


Que pessoas que merecem ser lembradas em sua vida?
Que pergunta difícil, hein... Essa semana tive um sonho muito lindo com a minha mãe, então vou deixar essa resposta com o sentimento que ficou nesses últimos dias e a lembrança vai ficar toda pra ela! 


Quer comprar o livro, A minha versão da História?
O livro está disponível nas livrarias cultura de todo país ou você pode comprar diretamente pelo Facebook da Carlena, com a vantagem que vem autografado por ela. ;) 

Um comentário

  1. Nossa, esse episódio da esmola q foi citado, já aconteceu comigo 2 vezes somente este na,porta do meu trabalho. Na primeira vez jogou-me a moedinha e saiu andando nem deu para recusar, na segunda um casal de velhinhos, ficaram parados na minha frente me olhando como se estivessem admirando uma pintura (haha), após, a senhora abriu a bolsa e arrancou 2 reais em minha direção, obviamente, recusei! Disse que trabalhava ali e estava na calçada apenas esperando um colega e não estava pedindo esmola! O senhor então esbravejou uma pergunta, com um certo sorrisinho: "Mas você não está sentada aí?!" Apontando para a cadeira de rodas. E eu com cara de paisagem respondi que sim, o casal de velhinhos continuaram seu trajeto e meus colegas de trabalho riram mt. Levamos na brincadeira, mas a verdade que essas situações são constrangedoras e tbm são uma forma de preconceito explícito! Carlena, desejo todo o sucesso com o seu livro, é interessante essa questão de desconstruir certas opiniões ao nosso respeito e retratar a nossa realidade.

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